Compartilhando o significado de ter um carro antigo... ou mais de um!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A faísca de vida para o Frank

Várias pecas compradas, ferramentas e equipamentos de segurança separados, e lá fomos nós num domingo tentar resolver a „frouxidão de desempenho“ do Frank. Pesquisei em alguns sites sobre Wartburg, DKW (afinal é outro carro com motor 3 cilindros e 2 tempos) e comprei um manual de serviço do Wartburg (em alemão, o que dificulta as coisas mas ainda assim é sempre uma fonte de informação), e tudo logicamente indicava para ignição, ou eventualmente para a bomba de combustível.

O primeiro sinal de problema foi ao testar se havia faíscas nos três cilindros, e esta se mostrou errática no de número 3. Tirei as velas de dois cilindros e a deste cilindro estava encharcada, sinal que a queima de combustível não estava das melhores – mas, já tendo trocado cabos de vela e as próprias velas anteriormente, apenas conferi a abertura das velas e as coloquei de volta. Também verifiquei a bomba de combustível que estava íntegra, apenas com a tela de filtragem estava um pouco suja e que foi limpa. E, já que estava com as ferramentas e as pecas, substituí o sistema existente, com 3 platinados e 3 condensadores por um kit de ignição eletrônica fabricado na Hungria. 

Duas das três velas retiradas. A que está embaixo mostra o encharcamento, enquanto a outra está normal.
Ignição eletrônica em instalação. 
Instalado, ponto regulado, e… houve uma pequena melhora, insuficiente para que o carro voltasse à forma anterior. Ele até que enfrentou bem a rampa de saída da garagem (coisa que não fazia antes, provavelmente graças à nova ignição eletrônica e ao ajuste de ponto), mas ainda falta algo – e esse „algo“ pode ser o canto do cisne da bobina do cilindro 3. A fumaceira que saía pelo escapamento, típica de gasolina e óleo 2 tempos não queimado, também mostrava que algo está fora do normal.  Um parênteses: em 5 minutos de marcha-lenta, a garagem ficou com um clima londrino tamanha a neblina formada pela fumaça. Felizmente o alarme de incêndio não foi acionado, senão eu receberia uma visita nada desejada do Corpo de Bombeiros berlinense.



Para trabalhar no motor, é preciso remover a mini-frente, que é segura por 4 porcas.
Olhando assim, parece que metade do carro está desmontado.
Na falta de solução melhor, o fio adicional da ignição foi enrolado em volta do conduíte que junta os três fios originais da ignição convencional.
Uma dessas três bobinas deve ser a fonte do problema. Provavelmente a de cima é quem tem culpa no cartório
Precavido, já havia comprado uma bobina (ainda que usada) para colocar lá mas, esquecido, não levei a bobina para a garagem… portanto a troca vai ficar para depois, a ser feita junto com a organizacao dos fios dentro do cofre do carro, e a substituição do sensor da luz de freio, que ainda será comprado (problema relativamente antigo, mas que só agora decidi mexer) ou seja, só para daqui a uma semana ou duas.  Até lá, ele receberá uma bobina nova enquanto a usada recém-adquirida fica de reserva – desta vez, vou anotar para lembrar-me de trocá-la e torcer para que desta vez, o problema se resolva. 

sábado, 5 de setembro de 2015

Dois tempos, duas visitas

Depois de duas panes secas (parece até coisa de Formula 1), o carburador do pobre Frank ficou sujo e dirigí-lo virou um transtorno. E não adiantava limpar o giclê por conta própria e, já que era preciso renovar a inspeção dele (aqui chamado de TÜV, mesmo sendo efetuado pela empresa DEKRA), levei-o para uma oficina fortemente recomendada por alguns amigos. Essa oficina não é especializada em carros antigos mas o pessoal todo conhece os Wartburg dos tempos do muro de Berlim e segundo os relatos, deixariam o Frank quase como novo. Um dos mecânicos inclusive estava próximo de aposentar e tem um Wartburg mais novo como carro de uso diário, e isso avalizou a escolha.
E com ele mancando, tossindo, morrendo e cheirando a gasolina, fomos para a oficina para que, em "breves" três semanas (!!!) o carrinho ficasse pronto. Pneus trocados, carro inspecionado, motor funcionando, e então tudo pago. Saí dirigindo como um cavalo que sai da cocheira, e em dez minutos o carro ficara i-gual-zi-nho a como estava antes. Morria ao chegar no semáforo, tinha que ficar acelerando a todo o momento, tremia, gemia e chorava. 
Frank retornando da primeira oficina. Capenga, coitado. 

Dois dias depois, voltei à oficina com o meu amigo, e lá o deixamos novamente, para que pudesse ter o serviço concluído. Diagnóstico: o tanque não havia sido limpo (!), reforçado pelo fato da bóia não ter sido trocada e o marcador continuar estático (!!) como eu havia pedido.
E então, mais uma semana depois, o carro finalmente ficara pronto, de novo. Paguei novamente, e saí com ele que de fato estava melhor... mas ainda esquisito. No caminho, ele disse que não quer mais voltar naquela oficina, e que não veio para Berlim depois de uma vida em Praga para ficar passando na mão de mecânico de qualquer coisa. 
Segunda tentativa.

Nova oficina, desta vez perto do trabalho. Linda, especializada em carros antigos, e com experiência em carros do Leste. E três dias depois, mais um pagamento substancial pelo serviço, ele,ficou pronto... quase perfeito. Quase porque depois de alguns dias ele voltou a falhar, e agora perdeu força. Resumo da ópera: desta vez quem vai consertar o Frank sou eu! E o primeiro passo será instalar ignição eletrônica nele (kit novo, feito na Hungria), para depois ajustar direito o carburador dele. 

Frank em frente ao antigo Haus des Lehres (Casa do Professor), da finada Alemanha Oriental. 

Antigo anúncio da Tatra, na Karl Mark Allee. 

Filme "Der Sommer mit Mamá" ("A que horas que ela volta") em cartaz no Kino International. 

O Cafe Moscou, com sua réplica de uma peça do satélite Sputnik, e o Frank. 

Frank e o Café Sibylle ao fundo. 

O Frank está apreensivo, mas ainda se dispôs a ser modelo fotográfico para mim em alguns pontos turísticos do bairro (típicos de Berlim Oriental), num belo domingo ensolarado, como você pode ver aqui. Notícias virão em breve, aguardem!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Auto socorro na Alemanha - experiência prática com o Frank (ou "a revolta da autopeça proletária por melhores condições de trabalho).

Para decepção de minha querida esposa, eu gosto e sempre gostei de colecionar coisas sobre automóveis, entre elas revistas, catálogos e placas. Com isso, comprei um pacote com diversas revistas de automóvel publicadas na Alemanha Oriental no fim dos anos 60 e início dos anos 70 - e esta capa me chamou a atenção. Um simpático Wartburg azul "de boca aberta", com a proprietária senda auxiliado por um camadara da "Volkspolizei". Foto estranha e curiosa, quase que uma anti-propaganda, pois é como se hoje a revista Quatro Rodas colocasse na capa um VW Jetta novo sendo rebocado. Mas, os tempos eram outros e reconhecia-se que os carros davam seus problemas de vez em quando. 

E daí, numa manhã de tempo encoberto, peguei o Frank para mais um dia de trabalho. Nada demais até aí. As pessoas olhavam, ele seguia e até o fôlego do motor parecia melhor do que antes. E assim seguia numa das faixas do meio, a 110 Km/h indicados no velocímetro, até que próximo a saída para o trecho urbano próximo ao trabalho o ruído do motor cessou como se lhe houvessem calado. Dou ignição uma vez, nada. Vou dando seta para a direita para ir ao acostamento, e tentando, e nada do motor reagir. Parado no acostamento, tentei mais algumas vezes e pensei nos meus cálculos de autonomia - o marcador de combustível, como membro do proletariado deste veículo socialista, estava de greve e decidira não funcionar desde quando eu o peguei, PORÉM fui surpreendido ao saber que ele havia entrado em conluio com o tanque, promovendo um piquete contra a entrada de combustível e me ludibriando ao colocar 25 litros de gasolina e óleo 2 tempos, achando que já havia mais de 20 litros de combustível. Liguei para o seguro para pedir socorro, e descubro que não havia contratado essa cobertura... e também que não poderia contratá-la pelo telefone naquele momento. Daí a pessoa me passa o telefone da ADAC, que é a maior empresa de autosocorro daqui da região. 
Parado no acostamento da A100, esperando o socorro. À direita do painel, o marcador de combustível que seguia em greve e comemorava o sucesso do piquete.
E lá vamos nós, antes de telefonar para a ADAC, estrear o triângulo do carro e colocá-lo há alguns metros para sinalizar que estávamos lá por problemas mecânicos, e não para sermos modelos fotográficos. Liguei para a ADAC e fui tentando falar com os atendentes, com tudo que o meu pouco mas valente conhecimento de alemão permitia; em alguns minutos, nos entendemos, localizamos onde o carro estava, e daí vem a facada: o resgate custaria 150 Euros. Isso é quase o mesmo valor que eu pago de seguro anual do carro!!! Mas não havia alternativa, e sabendo que o posto de combustível mais próximo ficava há uns 5 Km sem possibilidade de ir a pé, aceitei. Ponderei entre aguardar dentro do carro me arriscar a morrer numa colisão vinda de um carro desgovernado levando Wartburg e eu para o além, ou então esperar fora do carro, depois do guard rail, e morrer congelado com o frio de 5 °C intensificado pelo vento da estrada que causava sensasão térmica de -7 °C, e escolhi o risco mais confortável, aguardando dentro do carro, vendo o marcador de combustível a rir da minha cara (acho que se ele tivesse braços, ele mostraria um cartaz "o carro unido jamais será vencido"!). 
Vendo o triângulo pelo retrovisor, esperando o resgate. 

E os carros passavam, enquanto eu esperava...
Nisso chegou um caminhãozinho laranja, do serviço da estrada, de onde desceram dois funcionários. O mais velho veio conversar comigo enquanto que o mais novo estava fotografando o Frank com o celular. Expliquei que já havia pedido o socorro e que a previsão era que chegassem em mais ou menos meia hora (e eu descobrindo que sabia mais palavras de alemão do que eu achava saber. Quase um Goethe), e então eles foram embora pois não havia mais o que fazer... sem antes o rapaz que fotografava pedir se ele podia tirar umas fotos da frente do carro. Havíamos sido promovidos a marcos rodoviários, ou a monumentos à insensatez veicular humana, ou ainda, a celebridades do posto de apoio daquela turma, que fotografaram um luso-brasileiro morador de Berlim, parado com seu Wartburg 1972 no acostamento. 

Eis que o Opel Zafira amarelo da ADAC chegou. O serviço foi rápido e o funcionário foi também tão atencioso quanto o que me atendeu ao telefone. Colocamos 5 litros de gasolina mais uns 100 ml de óleo 2 tempos no tanque, e depois de duas viradas no motor de arranque o motor pegou e funcionou como um gatinho... entrei num misto de irritação e grande alívio, e parecia ouvir o conluio "marcador + tanque" bradar "A LUTA CONTINUA / A LUTA CONTINUA ...". Fomos ao posto, completei com combustível e de novo, só consegui colocar 25 litros... além de completar o tanquinho do simpático funcionário da ADAC, que também ganhou uma história para contar. A "brincadeira" custou exatos 157,70 Euros, contanto o combustível do tanquinho da ADAC, além de ter me atrasado em 2 horas para o trabalho. 

Reabastecendo o Frank...
O salvador carro da ADAC.
Cheguei ao escritório, contei a peripércia aos colegas que deram aquela risadinha típica de quem não vê lógica em ter carro antigo - um deles, de Berlim Oriental nos tempos do muro disse pela quadragésima oitava vez que a "cota dele para carros da DDR chegara ao fim há muito tempo". Outro, de um outro escritório no mesmo andar, disse que me viu parado na estrada e queria saber o que aconteceu. Contei e ele falou que isso acontecia de vez em quando nesses carros. Pensei, sorrindo por fora e com raiva por dentro "1- por que esse infeliz não parou para ajudar??? 2- Ah, não diga que carros mais antigos de vez em quando dão problema no marcador de combustível...". Dias depois, meu amigo Stefan me presenteou com o manual do Wartburg um pouco mais antigo que o Frank, mas quase tudo igual. Agradeci imensamente, até mesmo quando ele insinuou que este me ajudaria caso houvessem outros problemas com o carro... 

Manual do Wartburg, deixado de presente na minha mesa no trabalho.
 Ah, pensaram que a história acabara por aí? Na semana seguinte, num lindo domingo de Sol, o Frank para de novo por falta de combustível, tendo andado menos de 150 Km após ter enchido o tanque. O carburador entrara também no esforço de greve e fez o consumo subir horrivelmente e também a fazer o carro falhar a ponto de ficar ruim demais de dirigir. Pronto, vitória do proletariado e reivindicação atendida - o Frank foi mandado para o mecânico para uma revisão geral. Não posso garantir, entretanto, que a boia, o marcador ou o carburador não acabem substituídos por outros que "cooperem mais com o patrão"... 
A seta indica que houve mais um capítulo desta história. 
Frank na oficina. E graças a um outro amigo, fui para casa num impressionante BMW M5. 



sábado, 23 de maio de 2015

Como ter um carro antigo sem surtar nem falir - terceiro passo

Prosseguindo com a série de posts, agora vamos ao terceiro passo - recapitulando, primeiramente escrevi sobre a decisão de ter ou não um carro antigo, e no segundo post o tema foi como escolher o primeiro carro antigo que lhe apeteça, caiba no orçamento e que você tenha aptidão para usufruir. Esta publicação de hoje vai cobrir a sequência de restauração e priorização na hora de "levantar" seu carro antigo. Se você decidiu por adquirir um veículo pronto, também é interessante que você leia este artigo pois um dia você precisará (ou quererá) fazer uma restauração ou dar uma melhorada no seu "amigo de lata", e acho que estes passos lhe serão úteis também. Antes de começar, ainda vale o recado: se você não comprou nenhum carro ainda, quer comprar para restaurar e é o seu primeiro projeto, compre um carro simples e com várias peças ainda disponíveis. Sou fã do Fusca também neste aspecto, pois ainda há muita opção de peças e se você errar em alguma coisa (acredite, as chances de errar são grandes), consertar o erro é muito mais fácil do que se fosse num VW SP-2 cujas peças são caras e escassas. A lógica também vale para as personalizações ou seja, se você quiser fazer um hot rod, comece com um carro ou conjunto de carroceria, chassi e mecânica mais simples.

O primeiro passo é a avaliação do carro, para definir e listar o que precisa ser feito. Observe e dirija o carro (quando possível) para ter noção do que está bom, o que está razoável e o que precisa de serviço urgente. Isso é fundamental para que você evite gastar dinheiro logo de início em coisas que são menos prioritárias e façam a restauração ficar mais demorada e cara. Além disso, dê preferência por trabalhos que podem ser feitos rapidamente, para que você veja o projeto progredindo e também consiga aprimorar suas habilidades. Importante: não desmonte o carro sem saber exatamente o que vai fazer, nem desmonte tudo para depois mexer em tudo e montar de volta. As chances de seu carro virar um monte de peças a ser vendido por menos do que você gastou são muito grandes.
Desmontar é fácil. E para montar de volta? (crédito: Garagem do Fusca)

Não há uma sequência fixa, mudando de acordo com o tipo de carro e extensão do projeto, mas a que funcionou melhor até agora é a seguinte:

  1. Documentação
  2. Mecânica geral (motor, câmbio, diferencial, suspensões)
  3. Funilaria
  4. Pintura
  5. Eletricidade
  6. Vidros
  7. Tapeçaria
  8. Cromeação
  9. Ajustes e retoques (funilaria e pintura)
Muitos podem perguntar: "por que documentação primeiro?". Simples: imagine que você gasta uma boa parte do seu suado dinheirinho na restauração do carro e de repente descobre que ele é objeto de mandado de busca e apreensão? Ou então que ele faz parte daqueles inventários complicadíssimos e você ainda cai no azar de ter um malandro na família do inventariado que declara o carro como dele e te faz perder o veículo? Acredite, já vi histórias assim e além de gerarem muitas dores de cabeça o final dificilmente é feliz. Então veja bem a papelada do carro, procure um bom despachante ou mesmo um advogado, e já transfira o carro para o seu nome se isso for possível; se não der para transferir já, ao menos tome todas as medidas necessárias para que seja fácil acertar a documentação posteriormente.

Sem entrar em maiores detalhes sobre as demais etapas, é mais importante que você faça uma boa pesquisa sobre quem vai realizar cada um dos serviços descritos acima. Se dinheiro não for limitante, há oficinas que tomam conta de tudo e te entregam o carro pronto e brilhando, mas isso está muito longe de ser barato. Se você gosta de fazer algum desses trabalhos ou acredita ter habilidade para algum deles, escolha um deles para se dedicar e faça com todo o esmero do mundo, gastando o tempo que lhe for necessário para fazer de maneira decente. Se algo começar a dar errado mais de duas vezes, faça uma pausa e vá pesquisar depois o que aconteceu - fazer essas coisas com a cabeça quente ou com pressa geralmente resultam em frustração. Além disso, há muitos tutoriais na internet que mostram como fazer determinados serviços, que acabam sendo muito úteis para amadores como nós.
Bolhas de ferrugem que apareceram na Manuela, após 18 meses de funilaria e pintura prontos. Um exemplo de retrabalho comum.
Quanto a escolha dos profissionais para fazer cada um dos serviços, lembre-se da boa e velha paciência. Ela vai lhe ser muito útil para procurar pelos profissionais que lhe satisfaçam, para juntar o dinheiro necessário para fazer o serviço, para debater eventuais retrabalhos e para encontrar as peças que faltam para terminar o projeto. Não confie somente em indicações - vá visitar o lugar, conheça a pessoa e sempre que possível veja outros trabalhos feitos pela empresa ou pelo profissional, de preferência trabalhos executados há mais de 6 meses ou um ano, pois assim já passou uma boa parte do brilho e maquiagem que pudesse ter sido feita.

Cápsula espacial Vostok 1, de 1961 (fonte: dafufsm.blogspot.com)
E por fim, mais uma dica importante: primeiro, faça o carro andar, depois pense em melhorias. Platinado, carburador, freios a tambor, dínamo e pneus diagonais não são bons o suficiente para as exigências de hoje MAS em 1961 era o que havia e mesmo assim o homem conseguiu ir ao espaço com essa tecnologia disponível... com isso, você evita gastos desnecessários, distração com a adaptação de sistemas novos e se anima ao ver o "amigo de lata" funcionando, mantendo o progresso com seu projeto, sem que você enlouqueça e nem vá à falência de tanto comprar peças, pagar profissionais, guincho e etc.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A ressureição de Silvestre.


Voltei a São Paulo por alguns dias, para visitar os parentes e amigos, resolver pendências e matar a saudade da frota além-mar.  E graças ao Kot, novo amigo e entusiasta dos Dodge 1800 e Polara, tive o prazer em andar novamente com o Silvestre. Sim, ele andou como carro novo, pelo menos por alguns Km, antes de aquecer porcausa do radiador entupido. Também tem os freios precisam de um ajuste, assim como resolver uma vibração de volante a partir dos 70 Km/h e também fazer a troca dos amortecedores, e se der vontade, consertar o rádio. Convenhamos, com 40 anos sendo 18 deles parado, ia dar mesmo algumas surpresas e, fora essas pequenos detalhes, o carro está pronto - sim, funcionando, se movimentando e parando seguramente. Um carro que estava esquecido agora voltou à vida, e recomendo os serviços do Kot - aos interessados, por favor me escrevam e terei o prazer de indicar os serviços dele. Então, vamos para as fotos!


Paralama direito, desamassado e pintado. Manteve-se o máximo possível da pintura original do carro, com ótimo resultado.
Saia dianteira nova, no lugar e pintada. Uma das poucas peças trocadas da carroceria dele.
 
Mini-frente pintada.
Silvestre sendo transportado para a etapa final da restauração.

Frente montada, com grade nova.
Primeira foto do Silvestre, onde tudo começou. Quase não parece o mesmo carro...
Lanternas traseiras antes da restauração. Desbotadas, cromo corroído...
... após restauração ficaram assim.
Interior restaurado, com o mesmo vinil original.
Silvestre "esquentadinho", no caminho de volta para casa.
E essa traseira empoeirada...
... hoje está reluzente!

quinta-feira, 12 de março de 2015

Frank, o Wartburg 353.

E matando a curiosidade de quem lê este blog, o carro é o que seria considerado o "carro médio da classe trabalhadora de sucesso" no Leste Europeu dos anos 70 - trata-se de um Wartburg 353 ano 1972, com suas "curvas nada curvas" desenhadas aparentemente com as réguas dos engenheiros alemães orientais, com apenas 38000 Km rodados, e que "morou" na então Tchecoslováquia até 2014. Após a queda do Muro de Berlim, muitos dos Trabant e Wartburg foram vendidos muito barato ou mesmo sucateados, rareando-os nas ruas e de uns três anos para cá, causando um aumento significativo de preço deles. Ainda dá para comprá-los por preços razoáveis, mas é de se pensar que há cinco anos, comprava-se um Wartburg decente por 500 Euros, e um Trabant para restaurar por módicos 50 Euros...

O Wartburg é um carro certamente incomum nos dias de hoje, mesmo aqui na Alemanha, e que se não é propriamente um carro bonito, ele compensa esta falta com a abundância em soluções interessantes e pouco convencionais comparadas aos veículos ocidentais da mesma época. Uma delas é a de usar o mesmo conjunto mecânico que era utilizado nos DKW antes da II Guerra Mundial - motor 3 cilindros, 1000 cm3 2 tempos, câmbio manual de 4 marchas acionado na coluna, e tração dianteira. Esse conjunto é muito parecidos com os dos DKW-Vemag que tivemos no Brasil, e tem um ronco de motor bem característico dos motores 2 tempos, junto com a fumaça azul que sai pelo escapamento, com a queima do óleo lubrificante misturado à gasolina. Como os recursos eram escassos na Alemanha Oriental, não dava para ficar desenvolvendo novos motores para o mercado - até mesmo porque não existia concorrência, o que era fabricado tinha uma fila de espera de 15 a 18 anos (isso mesmo, ANOS), então ninguém ia deixar de comprar um Wartburg para comprar outro carro da mesma classe. O "Frank", abreviação de "Frankenburger", nome  que meu irmão batizou este Wartburg, é um modelo de exportação para o Oeste Europeu, com acabamento melhorado, peças de melhor qualidade (selecionadas nas fábricas de autopeças) e algumas diferenças em relação aos fabricados para "mercado local". Sim, ele era exportado para vários mercados, e chegou a fazer um certo sucesso na Grécia, Chipre, Reino Unido e Finlândia com sua relação custo x benefício, economia de combustível e amplo espaço interno - ainda que o estilo dele pareça uma cópia chinesa de um um DKW Fissore brasileiro. Enfim, um carro eficiente dentro de suas limitações técnicas, e que atendia ao que lhe era proposto.

Falando sobre o Frank, o Wartburg Tcheco, eu estava procurando por um Trabant no Ebay, e de tanto procurar e não achar nenhum que me encantasse dentro do orçamento proposto, vi o anúncio de outros carros fabricados "do outro lado da cortina de ferro" e apareceu o anúncio dele. As fotos pareceram bacanas, a descrição também, e o preço era condizente. Marquei encontro com o proprietário, e combinamos de ver o carro no sábado seguinte. Minha surpresa foi não só ver um carro, mas uma reunião de mais de 50 Trabants, em diversos estados, cujo proprietário do local tinha para compra e venda (nota: ele afirmou já ter vendido Trabants para muitos países europeus, e também para os EUA, explicando o preço deles ultimamente); depois de acompanhar sem entender quase nada um papo em alemão solto entre o vendedor, o dono do local, e um amigo que foi comigo ver o carro, fomos ao galpão onde ele estava guardado. E apesar de uns amassados resultantes de uma de chuva de granizo, o carro realmente estava como descrito, sem nenhuma ressalva. Depois de duas tentativas o motor ligou e não apresentou nenhum barulho anormal... e então, negócio fechado! Saí à caça da transferência para o meu nome e da confecção de placas, de uma garagem para guardá-lo e depois de um mês, lá fui eu buscá-lo a 110 Km de Berlim.

Sábado passado, Adriana e eu acordamos cedo e seguimos até a pequena cidade de Babitz para buscar o Frank até seu novo lar. E depois de uma longa, detalhada e pouco inteligível explicação sobre o funcionamento do carro pelo simpático proprietário do lugar onde ele estava guardado (o "Sr Trabant"), fomos ao posto e seguimos pela estrada. O carro foi muito bem, sem anormalidades, com ar quente funcionando de maneira muito eficiente, e mantendo uma média de 100 Km/h, chegando a 120 Km/h em alguns momentos. Nada mal para um carro que ficou parado por tanto tempo e cujo motor não conseguiu nem "se esticar" direito. Chegamos sãos e salvos, ainda que sem estepe e descobrindo que o rádio não desliga, está tudo ótimo com ele. A lista de coisas a fazer nele é tão pequena que acho que bem rapidamente ele estará 100% pronto para viajar e circular por aí. Para um dia completar a lista (um dia...), pretendo comprar um Opel Rekord C, que é o "pai do Opala" e carro equivalente a ele na Alemanha Ocidental. Mas isso são planos para um futuro um pouco distannte. Enquanto isso, vamos curtir o novo membro da coleção, e primeiro desde que estou aqui em Berlim. Vejam abaixo mais fotos dele.
Frank num momento fora da lei, posando para foto do anúncio do Ebay.
Chuva de granizo, que deixou marcas na fuselagem.
Capa de revista alemã oriental "Der Deutsches Strasser Verkehr" ("O trânsito das ruas alemãs"), com um irmão do Frank. A foto com o capô aberto é propaganda pouco positiva.
Um mar de Trabant, de todos os anos, condições, gostos e bolsos.
Frank no galpão, ainda com as placas do antigo proprietário.
Mais uma do Frank, no mesmo galpão.

Frank na estrada, na média de 100 Km/h. Notem o painel completíssimo dele, com velocímetro, termômetro e marcador de nível de combustível (que aliás, não funciona).
Eu e Frank, numa parada estratégica para uma foto.