Compartilhando o significado de ter um carro antigo... ou mais de um!

sábado, 11 de maio de 2024

A casa do "Seu" Araújo

Quando eu era pequeno, morávamos numa casa térrea em São Bernardo do Campo, num bairro chamado Rudge Ramos. Esta casa fora construída pelo meu avô paterno ainda nos anos 60, e era típica “casa de lote inteiro” naquele bairro à época – garagem para um carro onde cabia o “Seu Alfredo” o Opala da família com relativa tranquilidade, pátio da frente, fachada azulejada, uma sala, uma copa, uma cozinha, três quartos, um banheiro, uma edícula, um porão. A frente de revestimento primordialmente amarelo com algumas peças pretas contrastava com as lajotas cor de telha do piso, que destacavam as paredes laterais de pastilhas coloridas e o portãozinho baixo bege, que combinava com a grade da janela. Na calçada, uma árvore vivia feliz e devolvia uma sombra gostosa a quem por debaixo dela passasse. Tenho boas lembranças dessa casa e do período em que moramos lá, pois a rua era tranquila e por isso eu podia brincar na rua com outras crianças. Entre tais lembranças, estão a casa da dona Montserrat – uma amiga espanhola da minha mãe – e a casa do “Seu” Araújo. Além de morar na mesma rua que nós, o “Seu” Araújo trabalhava na mesma empresa em que meu pai trabalhava, e tinha um Dodge Polara cinza, que cabia direitinho na vaga única da frente dessa simpática residência em que morava com a família, com destaque a um painel azulejado na lateral da casa, com duas araras e uma cachoeira. Lembro-me também que o filho do “Seu” Araújo (não me lembro do nome do menino) era tão parecido com o pai que parecia uma miniatura dele. Tempos depois, “Seu” Araújo se mudou, nós nos mudamos em 1982 para outra casa, e como a vida segue, nunca mais ouvi falar dele. 

As pastilhas, a fachada, o piso... tudo virou um belo cenário para mim fantasiado de Batman, no auge dos meus incompletos cinco anos de idade. 

Ao meu lado, as minhas irmãs Sandra (à esquerda, ajoelhada) e Rosana (à direita, em pé). 

O portãozinho mencionado neste texto, que me serviu de apoio à fantasia de tentar mostrar a capa como o Batman fazia. Ao fundo, a (finada) casa da (também finada) dona Chiquinha. Era uma linda casa, que foi ao chão para dar espaço a um quadrado e feioso prédio.   

Os anos passam, e com frequência passava em frente à casa onde morei, sem parar para ver com mais detalhe a transformação daquele imóvel e dos outros na rua. Algumas casas naquela rua foram demolidas para dar lugar a outros sobrados geminados, prédios e outras edificações sem charme, outras foram reformadas e desastrosamente “atualizadas” como se tivessem sido submetidas involuntariamente a uma versão “construção civil” de Botox e cirurgias plásticas. Umas poucas resistiram com as fachadas tal qual as vi pela primeira vez. Os paralelepípedos da rua foram cobertos pelo asfalto, e muitas das árvores que moravam nas calçadas foram cortadas, incluindo a da casa amarela de número 280 – casa essa que também fora vítima das “plásticas”, tendo perdido a fachada de cor de pintinho, o portão creme, e as lajotas de cor de telha deram lugar a um revestimento cerâmico mais moderno e apático. Entre as casas que resistem, está a da dona Montserrat, trazendo um colorido e a uma vizinhança que se acinzentou. 

Ontem à noite, usufruindo de alguns momentos sozinho, retornei à rua onde vivi até os meus sete anos de idade. Caminhar por lá foi como rever o passado, mas ao mesmo tempo ver que aqueles tempos de infância ficaram bem longe. Além da simpática casa da dona Montserrat, está o Teatro Lauro Gomes (que na minha infância era chamado “Anfiteatro Prefeito Lauro Gomes”, e nada mais era que um teatro cinza e largado no bairro), e alguns prédios cujos negócios se encerraram mas felizmente não se ousou pintar as fachadas pastilhadas ou revestidas com pedras. A casa onde morei, no número 280 da Rua Helena Jacquey, hoje é a sede de um salão de beleza; segundo a funcionária que trabalha lá, o porão continua lá e é “enorme e meio sinistro” por ser totalmente escuro; a cozinha que existia lá desapareceu, junto com a garagem onde o carro da família dormia, mas a muito da casa original parece ainda existir, como a edícula ao fundo, os três quartos (agora são salas de procedimentos estéticos alheios ao meu conhecimento) e a grade da janelona da sala, remetendo aos tempos em que havia um portãozinho, uma árvore, cores e paralelepípedos. Saí dessa breve conversa com saudade daquela casa, da minha infância, e de um tempo em que a vida era mais simples e as pessoas conversavam entre si. E a casa do “Seu” Araújo? Ela está em pé, mas muito diferente daquela que conheci – cinza, sem graça, anacrônica, mas felizmente o mural de azulejos felizmente continua lá, resistindo ao tempo e mostrando que a vida pode ser mais colorida.

O mural azulejado da que já foi a casa do "seu" Araújo. Foto do dia 10 de Maio de 2024. 

domingo, 24 de julho de 2022

Estou de volta (a escrever)

Hoje, numa bela manha de verão na Bavária, volto a escrever neste blog que de tão empoeirado, ficou esquecido em algum canto da imensidão da internet. Retomo a escrever porque há quem goste de ler, eu gosto de escrever, e porque neste interim tem uma porção de histórias minimamente interessantes e divertidas envolvendo carros - afinal, é sobre isso que eu escrevo. No entanto, é impossível nao falar sobre COVID-19 nem da invasão russa à Ucrânia, pois estas causaram mudanças no Mundo e consequentemente à vida de todos nós. Prometo que será dentro do contexto, e com o mínimo de citações possíveis, pois ninguém está afim de falar sobre tragédias. Se repararem bem, o último post data de Dezembro de 2020, há mais de um ano e meio, e lógico que houve mudanças na frota. Uma delas, muito importante e emblemática: o Scirocco, o Willy (o Trabant) e o Cirilo (o Fiat 126p) agora moram no Brasil. O processo todo levou mais de um ano para ser concluído, custou caro, mas valeu a pena. Recomendo? Não sei, depende do quanto você topa gastar de tempo e dinheiro para realizar um sonho. Essa história toda merece uma publicação inteira, o que farei em breve.
(Trabant limpo como nunca esteve, e Fiat 126p a caminho da vistoria para registro em meu nome. Ambos são agora "cidadãos brasileiros"). Com a mudança dos três carros para o Brasil, a vaga foi preenchida por outro carro ao mesmo tempo comum, já que foram fabricados milhões deles ao longo de 45 anos, mas também incomum no "mundo ocidental" - um Lada 21011 ano 1981 é o novo membro da família, e porcausa da sua cor "nude" foi batizado de PeLada. O pouco que puder ver da história deste carro em particular é que ele possivelmente foi adquirido em algum país báltico, trazido para a Alemanha entre 2015 e 2016, e usado sem grande mimo pelos dois proprietários anteriores até ser comprado por mim em Novembro de 2021. Ele é bastante fotogênico, mas a vida nao foi tão simpática com ele pelo que indicam algumas marcas de uso; mesmo assim, ele é valente o suficiente para realizar algumas viagens relativamente longas, respeitando-se algumas limitações deste simpático russo de descendência italiana. Sim, também haverá ao menos um par de publicações dedicada ao PeLada, e sobre como é dirigir um carro russo num país onde a Rússia nao anda lá muito bem vista...
("PeLada" em Ljublijana, capital da Eslovênia) No Brasil, a frota continua sem grandes mudanças. A mais significativa até o momento é a conclusão de alguns serviços de atualização da Manuela (Kombi), e da ressureição do Toninho (Opala laranja) depois da revisão do motor. Depois de um hiato de um ano e meio, voltamos a São Paulo, andei brevemente na Manuela e conclui que a atualização precisa ser completa - nao só na suspensão e freios dianteiros como também no conjunto traseiro, o que acontecerá assim que possível. Ficar longe de lá por tanto tempo, porcausa da pandemia, nos fez pensar em muitas coisas e considerar planos, atitudes e também algumas mudanças - palavra que apareceu nesta publicação algumas vezes. A situação por aqui, com a inflação persistente e uma guerra há 1000 Km daqui, nao deixa a ninguém ficar muito confortável no momento, mas é este o mundo de hoje neste ciclo de retrocessos e polarizações. Mas, enquanto a hora de retornar de vez nao chega, vamos vivendo aqui nesta terra tão bonita como diferente que é a Bavária.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Willy e Cirilo juntos - impressões

Comparar um Trabant 601 e um Fiat 126p mostra muito mais semelhanças do que diferenças entre os dois carros. A motorização de ambos já era obsoleta na época do lançamento deles – ambos com motores de dois cilindros refrigerados a ar, capacidade cúbica e potência similares (o motor do Trabant é baseado em dois motores dois tempos da Zündapp, dos anos 30; o conjunto motriz do Fiat 126 era uma pequena evolução do Fiat 500, de 1957) dão conta do recado dentro da proposta dos carros; ambos são pequenos (o Trabant tem praticamente o mesmo tamanho de um VW Up!, para ficar no mesmo padrão de comparação).  Ambos foram feitos para poderem ser reparados pelos próprios proprietários, algo muito comum naqueles lugares e até o meio dos anos 1990 (nota: antes que alguém pense ou mesmo comente “ah, tá veeeendo como as coisas eram ruins no comunismo??”, lembremo-nos que Fusca, Chevette e Fiat 147 não eram assim tão superiores nesses aspectos, tendo limitações e necessidade de cuidados iguais – seja no Brasil, Alemanha (Ocidental), França ou Itália. 

Apesar da foto um tanto escura, dá para notar que o Trabant é ligeiramente maior que o Fiat. 


O pequeno Fiat laranja praticamente some ao lado de um Golf!

Tem mais de um metro de diferença de comprimento entre eles

O Trabant possui motor, câmbio e tração na dianteira, mais adequado para dirigir em condições de neve; já o Fiat 126 tem todo o conjunto motriz na traseira, o que favorece seu uso para vencer aclives e morros. Tanto um quanto outro têm suspensões firmes (e um tanto duras), e conforto ao rodar não é o forte de nenhum deles – o Trabant é mais confortável, mas não é nenhum sofá ambulante. A direção do Fiat é mais precisa e bem mais rápida, tornando-o mais ágil na cidade, mas sem que o Trabant fique para trás, e acompanham bem o trânsito urbano. Estacioná-los é simples, mas o Fiat 126p beira o risível de tão fácil, cabendo em praticamente qualquer vaga. Os freios de ambos é a tambor nas quatro rodas, sem assistência, suficientes para pará-los com planejamento e sem pânico. Os do Willy são de duplo circuito hidráulico, ao contrário dos do Cirilo que são de circuito simples. Não sei se por esta ou outra razão, os freios do Trabant parecem melhores.  

Por dentro, eles são espartanos em acabamento e acessórios, mas o Trabant tem bem mais espaço interno (ou melhor, menos claustrofóbico), além de possuir um porta-malas que permite de fato colocar (médias) malas, enquanto o do Fiat 126p mal cabe uma mala e uma sacola. Os bancos traseiros do Fiat são tão pequenos e o espaço para as pernas é tão diminuto que ele deveria ser classificado como um 2+2 (onde o “+2” é para uso por crianças ou em trajetos muito curtos; já no Trabant, dois passageiros se sentam com mínimo conforto e considerável calor humano. Tanto num quanto noutro, o nível de ruído interno faz com que o rádio tenha bastante trabalho para se fazer ouvir, ou então que se console em ser um objeto de decoração no veículo.

E por fim, manutenção e oferta de pecas... normalmente, não é problema para nenhum deles. Há muitas pecas novas e usadas disponíveis na Alemanha, Polônia e Hungria (apesar da qualidade menor das pecas húngaras, principalmente quando comparadas às pecas de estoque antigo produzidas na ex-Alemanha Oriental). Para o Fiat 126p, recomenda-se trocar o dínamo por um alternador, e a ignição convencional por eletrônica (o alternador já está no radar; a ignição eletrônica, vai depender da disponibilidade). Para o Trabant, colocar ignição eletrônica, que já veio no Willy.

Ambos os carros são equivalentes, e oferecem bem aquilo que se propõem, guardadas as devidas limitações de projeto e da época. O Fiat é ideal para o uso no trânsito, para trajetos de até 20 Km por dia. O Trabant dá mais conforto (ou menos desconforto) para passeios mais longos, ainda que sem pressa. Lembrem-se que na época da Cortina de Ferro, famílias alemãs orientais e polonesas viajavam de férias por 2000 Km, em quatro ou cinco pessoas, bagagem pelo carro todo, e por vezes até puxando um pequeno trailer, seja num Trabant, Fiat 126p ou outro carro equivalente (como o Zastava 750 – o Fíco – que nada mais é que um Fiat 600 fabricado pela Zastava sob licença lá na Iugoslávia... na mesma fábrica de onde saiu este Fiat 126p). 

Trabant com um trailer chamado Qek Junior, e com um aerofólio de teto, para melhorar a aerodinâmica. Qualquer ajuda era bem vinda. 

Fiat 126p com um trailer polonês, similar ao Qek Junior

Qual o meu veredito? Pessoalmente, prefiro o Trabant – como diz um amigo meu, este é um carro que “oferece tanto e pede tão pouco”. Como proprietário de Fusca, posso inclusive dizer que ele é superior a um Fusca 1300 – com desempenho similar, melhor consumo de combustível, espaço interno similar e dinamicamente mais ágil. Mas a preferência é em parte mais emocional do que factual, então outra pessoa preferir um Fiat 126p ao Trabant é algo perfeitamente factível e previsível. E você, prefere qual deles?

E se vc quiser praticar um pouco de Alemão, veja os testes e dimensões, vindos de revistas da época (revista Strassenverkehr). 





















quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Cirilo, um ítalo-polaco-sérvio se juntou à família


Numa tarde fria de Março, já nos primeiros dias de pandemia aqui na Alemanha, dividia o tempo entre uma reunião desinteressante e anúncios no perigoso Ebay Kleinanzeige – um equivalente ao OLX na Alemanha. Como se eu não tivesse problemas suficientes na vida, eu procurava por um Scirocco para o meu amigo (veja o post anterior – “o carro do pescador”) quando apareceu um anúncio de um pequeno e simpático Fiat 126, da cor laranja. Mandei mensagem para o anunciante, e no dia seguinte fui ver o carro, ainda que movido pela curiosidade ao invés do desejo de fato em aumentar a coleção. 
Este é Cirilo. Um Fiat Polski 126, montado pela Zastava na Iugoslávia. Confuso, né?

Antes de falar da visita ao carro... que carro é um Fiat 126? O Fiat 126 foi o carro que substituiu o Fiat 500, simpático carro popular que – junto com as motos Vespa e Lambretta - ajudou a Itália a ter mobilidade no período pós II Guerra Mundial.  Extremamente simples, pequeno e prático tal qual o Fiat 500, incorporou algumas mudanças importantes como um motor mais potente (de 18 cv no Fiat 500 para 24 cv no Fiat 126), carroceria de estilo mais moderno e maior espaço interno, foi um sucesso ao ser lançado em 1972. E, 1973, a FSM da Polônia fabricou estes mesmos carros sob licença da Fiat até o ano 2000, incorporando ao longo dos anos diversas modificações, sendo o carro popular da Polônia, conhecido por lá como Maluch (“o pequeno”). Outros países também fabricaram o Fiat 126, como Áustria, Espanha (pela SEAT, então estatal), Sérvia (então Iugoslávia) e Austrália, tendo diversos usos e públicos alvos em seus diversos mercados – enquanto na Alemanha e Suíça o Fiat 126 era majoritariamente carros urbanos ou o segundo carro de alguma família, na Polônia, Hungria e Cuba ele foi o primeiro carro de muitas famílias.  

Aí que a história começou a ficar interessante – o carro era um Fiat 126p, portanto de fabricação polonesa. Mas ao ver o carro com mais cuidado, ele era um dos poucos que foram montados pela Zastava na Sérvia, sob licença da Fiat e FSO. O simpático carrinho tem plaqueta da FSM, emblemas Fiat 126p, pecas em grande maioria polonesas... mas o manual de instruções e mais algumas outras pecas eram de fabricação iugoslava, como os cintos de segurança e manuais de proprietário e de revisões (e devem ter mais pecas, mas estas foram as que consegui ver). O carro era de um amigo do vendedor, que o trouxe dirigindo da Sérvia até Munique, mas que o vendera pois comprara outro carro na Alemanha. O preco estava bom, mas algumas coisas complicavam o negócio. Por exemplo, ele ainda tinha matrícula da Sérvia, que não faz parte da Uniao Europeia, dificultando a transferência. Consequentemente, o pequeno Fiat Ítalo-Polaco- Sérvio (ou Iugoslavo) não tinha TÜV (teve somente o pagamento de imposto de importação), o que reservava potenciais surpresas desagradáveis numa inspeção. E como dirigir um carro (e portanto saber como ele está), se ele não poderia trafegar mais na cidade? Fizemos o seguinte acordo: se ele me entregar o carro com TÜV novo e pronto para transferência na Alemanha, eu compraria o carro incluindo os custos para fazer a inspeção. 

Foto do Cirilo, ainda com placas da Sérvia, e na cidade onde "viveu" por muitos anos.

O pequeno e valente motor bicilíndrico refrigerado a ar, de 23 pocotós.

Ainda com as placas da Sérvia

Cirilo, no dia em que o conheci. 

Alguns meses se passaram, a primeira onda de pandemia se agravara e depois diminuiu bastante, e de repente o vendedor me manda uma mensagem: “Luzzio, vou fazer a inspeção do carro agora. Quando podemos nos encontrar?”. O homem não conseguia pronunciar Luciano, mas tinha memória boa o suficiente para se lembrar do acordo. Ao ver o carrinho, tão simpático e então já inspecionado (e aprovado), pensei bem, e começamos a conversar numa proposta – até mesmo porque haviam coisas que foram trocadas que não estavam previstas quando avaliei o carro (por exemplo, o pequeno tanque de combustível, que estava furado). Conversa daqui e dali, uma voltinha no carro, chegamos num acordo e comprei o pequeno veículo. Uma semana depois, fui buscá-lo com os documentos prontos para transferência, mas as placas sérvias mesmo, para levá-lo até onde moro, e posteriormente transferi-lo. 

Cinto de segurança original Zastava, comprovando sua origem de montagem na Sérvia.

O porta-malas é tão pequeno que deveria se chamar porta-bolsa ou porta-lancheira. 

Cirilo no dia em que fui buscá-lo.

O pequeno polaco, doravante denominado Cirilo, me aguardava estacionado numa vaga de Zona Azul com um papel no parabrisas. A boa notícia foi que, com placa da Sérvia, a autoridade de trânsito local não conseguiu lavrar a multa, mas comunicava por aquele papel que o carro tinha que sair de lá em 24 horas. Saquei-o de lá, abasteci 10 litros de gasolina, e segui viagem para Herrsching, percorrendo 29 dos 43 Km com alegria até que... durante o trânsito na estrada, o motor apagou.  Nhéc nhéc nhéc nhéc... nada. No embalo, consegui pará-lo no acostamento e esperei que ele esfriasse um pouco para tentar novamente... nhéc nhéc nhéc nhéc... nhéc nhéc nhéc nhéc... e pronto! Ele ressuscitou cambaleante, mas voltara a andar! Percorri mais 5 Km até um posto de descanso, afim de reabastecer a garrafa d’água para refrigerar a bobina dele. Vinte minutos depois e um pouco menos quente, seguimos até Herrsching, parando apenas na garagem.

O sorriso da Adriana não foi tão efusivo como o meu, mas ainda assim ela se simpatizou com o carro – afinal, o Fiat 126 é tão pequeno que não dá para olhar para ele sem sorrir, ou mesmo rir de seu tamanho e jeito. Graças a uma amiga polonesa, consegui o emblema traseiro “600” que faltava nele, e no mesmo Ebay Kleinanzeige, consegui um rádio polonês para ele (AM, FM e Ondas Curtas), um retrovisor Fiat, e mais algumas peças sobressalentes de ocasião. Como andei pouco com ele, não posso passar números mais precisos, mas posso dizer que ele é perfeito para o uso urbano – ele é ágil, a direção é leve e rápida, e cabe em qualquer lugar, com seus míseros 3,06 m (vejam a foto dele ao lado de um Golf, para ter ideia do tamanho. Ele é 60 cm menor que um VW Up!). O consumo de combustível é bem modesto, por volta de 17 Km/l. Mas a velocidade máxima dele é de teóricos 105 Km/h – cheguei no máximo a 1000 Km/h no velocímetro, e pelo nível de ruído, parecia que iríamos entrar em órbita a qualquer momento. Ele é simpático e suficiente – não tem nada além do que alguém precise para dirigir de A para B, a qualidade de construção dele não é das melhores, mas condiz com a proposta do carro e a necessidade de custo muito baixo. 

E você, caro(a) leitor(a), o que achou? Conte nos comentários. Em breve, colocarei mais um post, com as impressões ao dirigí-lo em comparação com o Willy (o Trabant).  


domingo, 20 de dezembro de 2020

O carro do pescador

Tenho um amigo cujo hobby é dar ideias de pouco juízo para mim, às quais gentilmente agradeço retribuindo com outras de igual prumo. Por sugestão dele, comprei num ferro-velho paranaense um inoperante fogão à lenha que me acompanha nesta estadia germânica, desviei uma viagem de férias para ver (e comprar) um Opel Ascona em Portugal para posterior envio ao Brasil, e mandei, junto com esse Ascona, o meu querido Eusébio (um Opel Rekord branco) para uma nova vida no Brasil. Em contrapartida, eu que acabei o estimulando a comprar o primeiro e depois o segundo Monza da coleção dele, e o aticei com diversos tipos de carros que existem aqui neste lado do planeta.

Dia desses, trocávamos mensagens de voz pelo WhatsApp (estranho hábito este, pois poderíamos simplesmente nos falar pelo telefone) e disse que gostaria de mandar o Willy, meu querido Trabant, um dia desses para o Brasil, em preparação ao nosso retorno ao Brasil, que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. Como mandar dois carros é unitariamente mais barato que mandar um só, ficamos divagando sobre qual veículo antigo adquirir e fazer companhia nessa jornada, ao que veio a ideia de um VW Scirocco 53b. Entre a divagação e o fato, lá fui eu atiçar meu amigo com diversos anúncios. Entre eles, chamou a atenção o de um carro para restaurar, de uma série especial chamada Tropic, e que estava relativamente perto de onde moro.

Em tempos de pandemia, a hora foi marcada com maior antecedência que o de costume para os próprios alemães, e fui ver o carro uma semana depois. Ele estava estacionado na rua, empoeirado e com folhas ao redor, e enquanto o proprietário não chegava, fui vendo o que era possível. Pontos de ferrugem, uma leve colisão, pneus de inverno, mas todos os detalhes no lugar – coisas típicas para um carro que foi usado, mas não moído.  O proprietário chegou, e após abrir o carro, vi que o interior bem preservado apesar da sujeira; os bancos com sobrecapas imundas, mas que ajudam na preservação das capas; ao abrir o cofre do motor, um cenário semelhante – motor imundo, mas sem grandes adaptações. A tampa do cofre não mostrava salvação e uma troca se fazia necessária.















Corrosão aqui e acolá. sujeira... nada que comprometesse, mas sinais que o carro precisa de cuidados. 

Conversando com o proprietário, antes de dar uma volta com o carro, descubro que o carro era do tio dele, que falecera semanas antes, após ser mais um a perder a batalha contra um câncer.  Saímos para uma volta, e o trambulador gasto tornava a troca de marchas mais difícil, manhosa, mas ainda assim o Scirocco se comportara muito bem. E enquanto conversava, o vendedor falava sobre o carro e de algumas lembranças do finado tio, cujo prazer era a pescaria, principalmente os lagos ao redor da cidade – a região sul da Bavária é servida por diversos lagos, sendo que a das cidades ao oeste de Munique é conhecida como região dos Cinco Lagos (Wörthsee, Starnberger See, Ammersee, Pilsensee e Weßlinger See), o que revivia lembranças boas, mas ainda doloridas pela ausência. Disse que se lembrava, ainda adolescente, quando o tio aparecera com o carro em casa, com meros seis meses de uso e comprado de um funcionário da Volkswagen. Lembrou-se das viagens do tio, das histórias de pescaria, e inclusive da última vez, meses antes de falecer, que o tio levara o carro para uma nova inspeção (a HU/AU, ou TÜV).

Como era de se esperar, negócio fechado. Dias depois, ele me entregou o carro e junto, um pacote de documentos e recibos do carro, incluindo a nota fiscal dele e o livrete de revisões. Falei para ele que o carro será restaurado, e percebi que uma lágrima se formava num dos olhos, prontamente disfarçada por ele para seguir em frente. Ao se despedir de mim, ele apenas pediu que mandasse fotos do carro após a restauração, para assim ter o conforto que aquele objeto de metal, plásticos, borrachas e vidros, de fato tenha recebido uma nova vida e assim, as lembranças do velho pescador de Gauting tenham se mantido, ainda que alhures à Bavária. Abaixo, as fotos do dia da entrega.

Scirocco entregue. 

O proprietário, sobrinho do "pescador", assinando o recibo de compra e venda. 

Hoje, com uma tampa do cofre nova, sem as capas dos bancos (que confirmaram o ótimo estado do estofamento, a despeito das manchas) e um rádio mais próximo do original, ele repousa numa garagem, aguardando a data de uma longa viagem, que será o primeiro passo de sua restauração e integração a uma bela coleção de carros dos anos 80. Aguardemos. Ainda há muitas novidades a acontecer com este belo carro. 

Banco do motorista. Sujo, mas íntegro.

Banco traseiro parece novo.

Tampa semi-nova

Adriana, muito feliz em me ajudar a trocar a tampa do carro

Scirocco já com a tampa no lugar
Missão cumprida, com visual que marca o ano de 2020.



 

 

 

 

Starnberger See Ammersee Wörthsee Pilsensee Weßlinger See (fuenfseenland.de)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Carros usados na Alemanha - cuidado com a "sobra de rico" (Parte I)


Tem aquele ditado que diz “raios não caem duas vezes no mesmo lugar”; sorte com carro usado, aqui na Alemanha, também. Não me refiro a carros antigos, que ora já são bem mantidos, ora são objetos para restauração, e que, portanto qualquer problema é mais óbvio. Minha referência é sobre o típico carro usado para uso diário, que é mais barato que um novo e deveria ser confiável. É pessoal, aqui a frase “o barato sai caro” é bem verdadeira, ainda que o tal barato não o seja de verdade.
  
Lembram-se daquele Skoda Felicia? Simples, robusto, relativamente confortável e barato? Pois então, depois que ele foi embora, veio para o lugar dele um BMW 316i, ano 2004. Um bom carro médio, de desempenho modesto, mas em geral um carro honesto ao longo do ano que fiquei com ele. Ele era bem confortável que o Felicia, tinha só 128000 km quando eu o comprei, e era bem suficiente tanto na cidade quanto na estrada. 
O "Tio Berto"
Só que depois de uns quatro meses ele começou a fazer um barulho no motor – ao ligar, ouvia-se um ronco nos estranho, e que parava após 3 segundos. Era a corrente de comando de válvulas, item típico de desgaste nesses carros, e cuja troca é bem cara. Assumi o risco e fui utilizando-o, e daí outras coisas começaram a se fazer presentes – a embreagem já dava uma leve patinada, o vidro da porta do motorista emperrava de vez em quando, e o carro começou a consumir óleo, na faixa de 1 litro a cada 1500 km, que mesmo sendo previsto pelo manual, era de se estranhar. Daí um dia foi conferir o nível de óleo e apareceu uma nata clara na vareta. Era a temida mistura de água no óleo, sinal que seria preciso abrir o motor em breve. Como já comentei antes, os serviços na Alemanha são muito caros, em especial aqui na região de Munique, e consertar o “tio Berto” (apelido deste carro) ficaria mais caro que comprar outro. Anunciei-o, e depois de um mês vieram três jovens, andaram no carro e depois de uma breve negociação nós fechamos negócio. Um deles era mecânico, então faria estes serviços necessários nas horas vagas, e comprou o carro sabendo o que lhe esperava.

O "Tio Bento"
"Tio Berto" e "Tio Bento" pela última vez.
O “Tio Berto” deu lugar a outro BMW, desta vez 323i ano 2000, automático. Carro igualmente confortável, pouco rodado pelo ano (135000 km), e com desempenho bem superior ao 316i. Acontece que ele não teve uma vida fácil, e ele tinha uma aparência de carro cansado. Mesmo assim, foram três meses de uso, em viagens e trânsito para o trabalho. Até que chegou o dia da inspeção. O resultado da inspeção foi tão ruim, que eles só faltaram falar „olha, se você quiser, deixa o carro aqui e a gente joga ele fora para você“ – havia diversos vazamentos de óleo, os amortecedores estavam sem carga, e os discos de freio precisariam ser trocados; para fazer o carro voltar à vida em condições de rodar de acordo com as leis alemãs me custaria um dos meus rins, então fomos pelo mesmo caminho: anúncio, pechincha, redução de preço, até que um homem de aparência muito esquisita e cuja dentadura sorria e assobiava ao mesmo tempo, pagou quase que um valor simbólico para levar o carro, que posteriormente seria exportado para a Tunísia. Pois é, vi meu suado dinheirinho gasto numa confortável viatura, ser reduzido a uma fração do investido por não ser considerado seguro para as Autoestradas alemãs, mas que é mais do que suficiente para passar mais 10 anos de vida operacional em algum país africano ou então no Leste Europeu sem grande manutenção adicional. Minha tristeza e indignação com a situação diminuiu quando, duas horas depois, caiu uma chuva de granizo que eu nunca havia visto antes (havia pedras de gelo de quase oito cm de diâmetro caindo do céu), e que transformariam o preterido BMW em um monte de sucata. Três meses depois dessa chuva, ainda se veem muitos carros completamente amassados porcausa deste evento.

Tia Frida
Com um pouco de procura, o "Tio Bento" deu lugar à "Tia Frida" - uma bonita perua Mercedes C180 K, ano 2004, com quilometragem baixa, e absolutamente nenhum sinal de vazamento nem de corrosão. Confortável, bonita, espaçosa e bem cuidada, com isenção válida por pelo menos um ano e meio, era um bom carro para o que eu procurava. E como está com ela até agora? Você saberá no próximo texto.