Após a cirurgia plástica (ou melhor, metálica) de quatro meses, a Manuela finalmente ficou pronta. O resultado ficou muito bom, a lateral ficou incrivelmente lisa, as portas laterais fecham sem forçar muito (só exigem ainda um pouco de força pois as borrachas são novas) e o assoalho trocado ficou perfeito. Mas depois de tanta espera, compra de miudezas e torcida para que ela ficasse bem, mesmo depois de tanto tempo parada, a surpresa foi de fato emocionante. Pode chamar de piegas, mas fiquei feliz em vê-la em pé e rejuvenescida... e acho que ela também ficou. Quem a conheceu antes somente a reconheceria hoje pela placa e por algumas partes no interior não terem sido pintadas, mas só. Ela mesma ficou feliz com o término dessa temporada, e ao entrar ela sussurrou:_ "Ei, vamos embora?"
_ "Sim, vamos, mas preciso pagar o serviço primeiro. Por que essa pressa, Manuela?"
_ "É que eu estou com saudades de pegar uma estrada... e também cansei de tanta gente tirando fotos com celular!"
_ "Calma, que a gente já vai..."
Antes e depois - em exatos 370 dias, Manuela deixava de ser uma senhora de meia idade no limbo, para se transformar numa jovem simpática e cheia de vida. Antes de sair, o Ricardo (da Oficina Pit Stop daqui de São Bernardo do Campo, recomendo! Quem quiser o telefone dele, mande uma mensagem para mim) me alertou que havia um vazamento nos freios e que então precisava dar umas duas pisadas no pedal antes dele entrar em ação, e combinamos de retornar daqui há uns 2 meses, depois que a tinta curar, para poder lixar e polir algumas áreas escorridas e também instalar uma travinha que ficou faltando. Com tudo certo, A Dri (minha esposa) seguiu caminho e lá fomos Manuela e eu para a oficina do Henrique. Ela não gostou muito:
_"Pô, acabo de sair de uma intervenção dessas e lá vou eu de novo para oficina? Não quer mais saber de mim???"
_"Manu, querida, seus freios não estão bons e precisam de conserto... vc não quer se arrebentar toda, quer?"
_ "Lógico que não! Mas també meu estou cansada de ficar lá com tanta gente futucando em mim. Eu nasci para andar, transportar, ser útil e livre."
_ "Eu sei, eu sei... mas se não cuidarmos destes freios, aí é que vc vai ficar mal. Você não vê quantas irmãs suas tiveram sorte muito diferente da sua?"
_"Verdade. Tá bom, vamos logo. Mas não vem com conversinha mole, se o passeio é curto, pelo menos vamos curtir ao máximo."
Nos despedimos de todos e das outras Kombis que lá estão (inclusive de uma rara 1960 e de uma sofrida 1969, ambas pedindo desesperadamente por um novo dono) e seguimos rumo à curta viagem de 6Km. Já devidademente acostumado com o freio, fui acelerando um pouquinho... e ela de maneira bem feliz, respondeu prontamente. No caminho fui reparando nas poucas coisas que precisam de montagem, como o rádio e alto-falantes, forros de portas, trocar os cintos de segurança (que ficaram curtos!!!), comprar tapetes e forros...
_"Não esquenta, Luciano. Vai dar tudo certo. Vamos nos divertir..." (disse ela em tom animado).
O cabo do velocímetro encaixou no lugar como há muito tempo não encaixava, e lá permaneceu a viagem toda, coisa que nunca aconteceu... E lá estávamos nós, felizes já na Via Anchieta. Nem importava mais que éramos o centro das atenções (QUEM não vai ver uma Kombi "corujinha" azul claro, no meio de tantos carros sem graça de hoje?), nem o barulhinho no trambulador ao passar da primeira para segunda marcha, nem os freios eram grande preocupação. Lá estávamos nós, passeando juntos depois de tanto tempo. A animação foi tanta que o velocímetro chegou a marcar 120 Km/h - se você acha pouco, experimente fazer isso um dia numa outra Kombi. A sensação é inesquecível.


Estrada livre. Uma Kombi e um cara muito felizes.Chegamos ao Henrique, e os poucos que a viram lá se admiraram como ela ficou rejuvenescida. Antes de ir embora, falei rapidamente para ela:
_"Manuela, eu vou e você fica aqui por enquanto. Mas calma, vc vai ser bem tratada".
_"Em sei... e Luciano: Obrigado, de verdade. Você me resgatou, está cuidando de mim e está me tornando jovem de novo."
_"Não há de quê, Manu".
_"Ah! Agradeça à Adriana também. O carinho dela comigo me deixa muito feliz também... vamos viajar juntos, em breve!"
E com este emocionante presente de Ano Novo que recebi, deixei-a lá, já na expectativa do novo encontro.