Compartilhando o significado de ter um carro antigo... ou mais de um!

terça-feira, 10 de março de 2015

Carros antigos no cotidiano de Berlim

Berlim é uma cidade muito diferente das demais que já estive até hoje, em vários aspectos. Desde ter sido quase toda destruída na II guerra, depois dividida entre os aliados e ter tido um muro rachando uma nação - como muitos dizem aqui, o "Muro da Vergonha" - ao fato de ter aprendido a conviver com esse passado e mudar valores, conceitos e seguir em frente. Há muitos estrangeiros aqui, a cultura borbulha (principalmente a cultura pop)e curiosamente, a capital da maior potência europeia tem ritmo de cidade média no Brasil. 

E uma das coisas que mais representa essa cultura pop é a frequência em que carros e motos antigos aparecem no trânsito. Quem quiser, não precisa ter carro em Berlim em virtude do transporte público funcionar lindamente e também porque usar carro pode ser um transtorno - as vagas nas ruas são geralmente pagas, há poucos estacionamentos e com tudo perto, às vezes ter carro é mesmo uma chateação. Mas como há muitos que precisam ou não abrem mão de ter carro, uma boa parte usa um carro antigo para locomoção diária ou aos finais de semana - e com isso os "oldtimers" (como são chamados aqui) acabam dando o ar da graça pela cidade e contribuindo para manter a excentricidade de Berlim e também a preservar a história. Vejam alguns que fotografamos durante o cotidiano:

Trabant 601, versão Kombi. Devidamente caracterizado como o "carro da família" do bloco do leste europeu - ou o Fusca do alemão oriental.



Conhecido nosso, um VW Käfer (apelido do Fusca aqui). Esse é de fabricação alemã, e tem os vidros maiores, como deveríamos ter tido no Brasil.



Furgão IFA Barkas B1000. Comparativamente, equivale a uma Kombi em dimensões e desempenho, é movida por um motor 3 cilindros 2 tempos de 1000 cm3, praticamente igual ao dos DKW-Vemag que tivemos no Brasil.




Um belo Peugeot 404, provavelmente do fim dos anos 60, repousa na rua com alguma neve cobrindo a castigada pintura. Aqui guardar carro em garagem não é um pre-requisito, mas uma comodidade por vezes dispensável. Para alegria da ferrugem...




Opel Rekord C Caravan, 4 portas. Essa é a mãe da Opala Caravan do Brasil. A foto ficou lastimável, mas foi o que deu para conseguir no meio do trânsito...



Não é carro antigo, mas vale pela nota: só na Alemanha uma concessionária troca os pneus normais pelos de inverno e coloca um adesivo para informar ao motorista para não passar de 210 Km/h.


E como curiosidade, fotos da Alexanderplatz hoje e em 1970, retratada por uma revista sobre automóveis editada na Alemanha Oriental.


Por fim, fotos de uma estrada alemã, com seu asfalto bem mantido e sinalização impecável, num lindo dia de Sol. No próximo post eu falo um pouco sobre esse dia, e o carro da foto. Alguém adivinha qual seja?





domingo, 25 de janeiro de 2015

2014 e suas mudanças

2014, ah 2014... o horóscopo chinês previa que este seria o ano do cavalo que traria mudanças e desafios: eu que nunca fui muito afeito a isso achava ser somente mais uma daquelas coisas da finada Mãe Dinah, mas a vida fez o seu papel e provou que eu estava errado. Ah, e fez isso direitinho, trazendo tantos desafios, oportunidades e surpresas que nunca pensei que fosse ter, ao menos em um período tão curto. Darei a mim mesmo o direito de não comentar sobre política e economia mundial e brasileira, pois este é um assunto já exaustivamente comentado em redes sociais e todos nós sabemos do perrengue que o Brasil passa em 2015. 
Dona Juju, viajando a Portugal com seus quatro filhos, em 2013.
Para começar, o aparecimento da oportunidade de adicionar mais um Fusca à frota, com a chegada do Oscar. Um Fusca muito bem restaurado, inteiríssimo e gostoso de andar, além de ter todo um estilo próprio. Foi muito bom tê-lo na frota por alguns meses, e nesse período a única coisa que fiz foi trocar a bateria e os espelhos retrovisores pelos originais (na foto). Mas por uma necessidade de reduzir a frota e aumentar momentaneamente o capital, ele teve que mudar de dono novamente e hoje o meu amigo Fabio Grigorini é o tutor da jóia. 

E eis que no trabalho surge um Plano de Demissão Voluntária, fruto das condições de mercado e faturamento da empresa... decisão dolorida, complicada, mas decidi entrar e me arriscar ao novo do que tentar ficar por mais tempo numa posição extremamente desconfortável, mas cômoda. Abril foi um mês com muitos problemas profissionais, e ao entrar no famigerado PDV, negociando uma saída depois de alguns meses para deixar a "casa em ordem" para o próximo, a sensação era de um grande alívio e que oportunidades surgiriam. E não é que surgiram mesmo? Ao comentar com meu superior funcional na Alemanha, e que eu passava a considerar com ainda mais carinho a possibilidade de mudar de país, ele me acena uma oportunidade. Fui para Berlim em Junho a trabalho, como parte da transição e fechamento de um projeto, e fiz uma entrevista... e passei. A sensação foi a mesma do cachorro que sai correndo latindo atrás do carro, até o momento em que o carro para e o motorista abre a porta, e consequentemente o cão fica sem saber o que fazer - afinal tudo tão legal, viver por um tempo em Berlim sempre foi um sonho mas até então era tudo muito mais abstrato e de repente, isso se tornou concreto. 
A torre de TV de Berlim.
Volvo Amazon, um dos vários "Oldtimers" que dão as caras nas ruas de Berlim quando a primavera chega.
Opel Manta 1973, mais um "Oldtimer" registrado em Hamburgo mas residente em Berlim.
Com isso, passei a trabalhar para fechar tudo o que tinha que fechar para a transição ao novo dono do posto em São Bernardo do Campo enquanto aguardava ansiosamente a chegada do meu contrato oficial de trabalho. Dia 30 de junho foi o dia em que me desliguei da Rolls-Royce Brasil e daí vem mais surpresas... dia 10 de julho é anunciado o fechamento da unidade. Foi muito triste, mesmo não estando mais lá, saber que muitos amigos teriam que buscar uma nova fonte de renda, e que uma empresa com 55 anos de Brasil e que trouxe algo então inimaginável para São Bernardo do Campo - revisão de motores a jato - deixaria de existir em Dezembro de 2014. 


E depois da tristeza, vem o desespero - minha esposa sentiu um formigamento forte no lado direito do corpo e a visão ficou embaralhada, após um dia de dor de cabeça forte. Corri para o hospital e daí veio o diagnóstico - ela sofrera um AVC, e teria que passar uns bons dias internada para avaliação do quadro e das consequências futuras. Depois de muitas vibrações positivas, tratamento adequado, equipe competente e apoio total da família e amigos, ela saiu dessa quase como se nada tivesse acontecido, com apenas uma pequena redução do campo de visão, que não interfere em nada no dia-a-dia. 

Portanto ali estava eu, incerto quanto ao futuro, passado de um enorme susto com a esposa, esperando uma prova documental que iria mesmo para a Alemanha. Resolvi (tentar) desencanar e fui até Cascavel em busca de algumas peças para o Silvestre (o Dodge 1800). Nada com pegar uma estrada e ver a transição das paisagens... e depois descobrir que Foz do Iguaçu ficava a meros 80 Km de Cascavel. Pois para lá se foi após ver as peças (e não comprar nada), quase que tropeçar num ferro velho e achar um monte de coisas interessantes (e obviamente comprar) como um fogão a lenha, uma base de máquina de costura, ferro de passar roupa a carvão entre outras... 
Cataratas do Iguaçu. Está esperando o que para ir visitar?
Paisagem da estrada em Cascavel, voltado para São Paulo. Uma paisagem assim faz valer à pena acordar antes das 05:00 para pegar a estrada.
E chegando de viagem algo me esperava - era o contrato de trabalho. A partir daquele dia 08 de Agosto de 2014, a ansiedade e a incerteza do novo tomaram conta, junto com o monte de coisas a serem feitas antes da minha partida para terras tão diferentes da minha. Dia 26/08 parti no pássaro de metal para esta jornada, deixando família, amigos e coisas no Brasil para viver algo tão novo na minha vida. Aprender um novo idioma, um novo trabalho, novos amigos, enfim, nova vida. Entre tantas coisas, foram quase 3 meses vivendo "acampado dentro do apartamento" esperando a mudança chegar, tendo comprado apenas o mínimo de móveis necessários para ter como viver. 
E assim chegou Dezembro em Berlim, com uma neve fraquinha, feiras de Natal, bastante frio, e a mudança propriamente dita chegou no dia 18 de Dezembro. Enfim, todas as surpresas do ano pareciam enfim, ter terminado. Era arrumar tudo, e se preparar para 2015. 

Feira de Natal em Alexanderplatz, Berlim, dia 20 de Dezembro de 2014.
"Friozinho gostoso" no alto da Torre do Anjo da Vitória, em Berlim

Um pouco de neve para afirmar que o inverno chegou.

Até que um telefonema muda tudo. Havia duas semanas meus irmãos me avisam que minha mãe estava internada porcausa de uma pneumonia e não havia com o que me preocupar. E diariamente o quadro dela seguia melhorando, e como já havia passado por coisas piores, as chances de sair dessa eram enormes. Porém dia 22/12, voltado do trabalho, meu irmão me liga e fala que o quadro piorara substancialmente e era hora de eu voltar. Comprei a passagem para o dia seguinte, já que não dava mais tempo de comprar para o mesmo dia, e cheguei no hospital às 08:50 do dia 24/12, a tempo de ainda ver minha mãe com vida, ainda que inconsciente e conectada a diversos aparelhos. E às 12:40 da véspera do Natal de 2014, a Dona Juju parte deste mundo para seguir o caminho da evolução, e garantir que os quatro filhos passariam mais um Natal juntos. Ela, como uma grande estrela, sai do espetáculo nesta data tão marcante... 

Porta retrato recebido junto com um par de botas pelo no dia 15 de Dezembro correio, presente de Natal da minha mãe e meus irmãos. Chorei como criança faminta ao abrir os pacotes...
Os irmãos e sobrinhos reunidos mais uma vez, para orgulho do Seu Manuel e da Dona Júlia.
Sr Manuel e Dona Julia, prontos para serem padrinhos de um casamento. Uma ótima lembraça dos dois.

Bom, como chorar mais não resolveria nada, fui visitar aos amigos e matar a (enorme) saudades dos carros, principalmente do Toninho (o Opala 74) e da Manuela (Kombi 73). O Wenceslau (Fusca 71) iria passear também, mas ficou rebelde, não quis ligar de jeito nenhum, e portanto acabou ficando na garagem. Paciência, ficou emburrado porcausa da minha ausência tão prolongada.
Eu e Toninho, aproveitando o Sol do fim de ano.
Mais uma do Toninho, lindo, confiável e fotogênico como sempre.
E 2014 se foi. Junto com ele, uma enormidade de lembranças, experiências e a certeza que é quase impossível prever alguns acontecimentos. 2015 promete ser um ano intenso, porém espero que mais estável pois haja coração e cérebro para aguentar tudo isso! E seguimos aqui, aprendendo Alemão, acompanhando o progresso da frota à distância, e acumulando experiências nesta cidade tão bacana e incrivelmente amiga dos carros e motos antigos (aqui chamados de "oldtimers"). Este post foi bem fora do usual deste blog, mas conto com a compreensão de todos pois 2014 e seus acontecimentos cotidianos não poderiam passar em branco. E fiquem tranquilos que, agora com um computador, teclado, monitor e mesa decentes para escrever, voltaremos à ativa. E deixo abaixo umas dicas do que está por vir nos próximos textos...




Obriado por continuar acompanhando o blog e excelente 2015 a todos!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Como ter um carro antigo sem surtar nem falir - segundo passo

 Muito bem, você fez seu dever de casa e ponderou suas contas, avaliou a demanda de tempo, considerou o estoque necessário de calmante para os problemas do carro e críticas de todos, e concluiu que não só tem vontade mas também disposição para um carro antigo e tudo o que vem junto. Parabéns e boa sorte! Sua jornada está prestes a começar portanto, pergunto mais uma vez: você tem certeza? Considerando que sim, então vamos iniciar a segunda parte, que é a da escolha do seu primeiro carro. Sim, "primeiro", porque não vai ficar só nesse - ou você irá trocá-lo posteriormente ou então irá somar outro(s), considerando que passe a gostar da coisa. Como devo escrever sobre valores estimados, colocarei os mesmos em reais e em dólares, para que tenhamos sempre alguma referência menos sensível às variações de câmbio e inflação.
Então, com a decisão tomada, o primeiro passo agora é pensar no tipo de carro que você quer, e isso requer um bom planejamento para que você não se arrependa futuramente. Como escrevi no post anterior, quanto mais novo o carro, maiores as chances de encontrar peças, encontrar modelos em melhores condições e mais baratos - e como toda boa regra, tem um monte de exceções. um Gurgel BR-800 90 vai ter a manutenção muito mais complicada que a de um Corcel II 80, e com R$10.000 (USD 4.750) pode-se comprar uma Brasília 77 em ótimo estado, ou um Escort XR-3 88 em estado razoável, ou ainda um escombro do que em algum dia já foi um Opala 70 4 cilindros. É interessante ter em mente que os carros antigos de hoje já foram "carros velhos" ou "carros de mano" há 10 ou 15 anos, e alguns carros atualmente podem ser ótimas opções como primeiro antigo. Agora, se você tem uma preferência por um estilo, marca ou época de fabricação, as escolhas ficam mais simples porém mais trabalhosas e eventualmente, mais caras. (Nota: eu particularmente prefiro os carros dos anos 60 e 70, mas teria numa boa um Santana CD 84 ou um Kadett GS 90; conheço pessoas que, no entanto, só aceitam carros Chevrolet ou Chrysler, outros que se especializaram em VW refrigerados a ar). 

Está decidido quanto à época e marca? Legal, mas já pensou no tipo de estilo? Pense bem, pois isso faz bastante diferença também, tanto no uso quanto custo de execução e manutenção. O exemplo abaixo ilustra bem isso - três pick-ups Chevrolet da família C-14 - sendo uma original do ano 1965, a Olívia no meio (que como mencionado antes, está em processo de transformação em "rat rod") e  outra em estilo "hot rod", fabricada nos anos 70. A original possivelmente teve a restauração (ou a própria manutenção por um dono zeloso) com menor custo que a pick-up laranja da foto mais abaixo, pela primeira se tratar de um veículo original, enquanto que a última pode ter passado por melhorias como direção hidráulica, freios a disco e suspensão mais moderna, o que a deixa mais macia de rodar no dia-a-dia que a "C14 Coca-Cola" da primeira foto.

Três pick-ups Chevrolet nacionais, igualmente bonitas mas de propostas diferentes. Uma originalíssima C14 1965 vermelha e branca, um "bom projeto" (como a Olívia, C10 79 que está ganhando um V8) e a C10 dos anos 70 ao estilo "hot rod".

Outro assunto importante é a condição de carro que você quer - pense no fim ou seja, o resultado final que você espera, e daí escolha o carro pensando nisso. Se vai modificar ou fazer um "rat rod",o carro até pode estar mais judiadinho, já para uma restauração 100% original o veículo precisa estar mais alinhado e com menores possibilidades de surpresas. De qualquer maneira, não se empolgue muito pois se você for mexer, vai encontrar alguma surpresinha. E se for pegar uma restauração como a dessa Kombi abaixo, prepare-se para muitas emoções...

Se você comprou essa Kombi...
... querendo deixá-la como esta, prepare o bolso e a paciência.

E por fim, o terceiro conselho - comece com um carro simples e depois parta para projetos mais complexos ou de carros mais raros. Você pode até sonhar em ter um Packard como o da foto ao lado, mas quantos você já viu de perto? Tem ideia do valor das peças (se existirem), e da mão de obra para deixá-lo majestoso? Para quem está começando, acho um desafio exagerado - não é impossível, mas vai puxar muito do seu tempo, dinheiro e já vi diversas histórias de carros bons e projetos promissores que pararam justamente porque o proprietário desistiu da empreitada pela falta de dinheiro ou então por ser vencido pelo cansaço. 

Então, já decidiu? Espero que você se anime e abrace um projeto - se é o seu primeiro, escolha com carinho e paciência (pode me escrever que dou minha opinião no que for preciso), e depois mãos à obra! No próximo post, falarei sobre sequência de restauração, o que fazer por conta própria e o que terceirizar, além de ferramentas e espaço necessário.







domingo, 11 de maio de 2014

Como ter um carro antigo sem surtar nem falir - primeiro passo




Incomoda quando alguém fica repetindo para mim que ter carro antigo é "coisa de louco ou de rico, se não os dois ao mesmo tempo". Um carro antigo dá despesa sim, mas futebol, TV a cabo, jantar em restaurantes e visitar a sogra também dão despesa e ninguém fica criticando quem o faz, já que isso é o que se espera que todos façam. Então se vc quer deixar de ser "todo o mundo", espero com esta pequena série de textos, ajudá-lo(a) a procurar, comprar, usar e manter o seu primeiro carro antigo. Entre erros e acertos, acho que posso aconselhar adequadamente neste assunto. Toda a quinzena (possivelmente, semanalmente) farei um novo post da série, assim como providenciarei notícias da frota.


Primeiro passo: por que você quer um carro antigo?

Este é o passo mais importante de todos, pois vai balizar suas decisões quanto ao seu futuro "amigo de lata" - o que você está disposto a tolerar, a aprender, fazer e deixar de fazer? Como com qualquer coisa na vida, cada decisão traz junto uma renúncia, então é preciso responder a estas perguntas com muita sinceridade para você mesmo, para que depois o seu carrinho não passe a ser um tormento em sua vida. Longe de desestimular alguém, quero no entanto mostrar neste primeiro passo que nem tudo são flores e glória em ter um carro antigo.



Reflita bem, pois você terá que se acostumar a garimpar peças não só na internet mas em lojas de autopeças, feirinhas/encontros e desmanches, vai sujar suas mãos, gastar tempo e dinheiro, e por vezes o resultado vai ficar aquém do esperado. Também é preciso considerar porquê você quer comprar um carro antigo - saudosismo ("meu pai tinha um", "foi meu primeiro carro" entre outros), ou ser fã da época do carro - anos 50, 60 etc - normalmente não são suficientes para manter a "amizade de lata" viva por muito tempo, principalmente quando for necessário procurar metade da internet por uma peça ou após uma pane (a primeira pane por superaquecimento no trânsito é inesquecível). Você precisa gostar muito do estilo, e saber ter paciência para usar e manter. Se for restaurar um, aí as dores de cabeça e gastos ficam bem maiores e o tempo de usufruir do seu veículo caem proporcionalmente (exceto se você tiver bastante habilidade, espaço, ferramentas e tempo para fazer a maioria das coisas com o mínimo de terceirização - daí isso tudo vira diversão).

Um lindo Galaxie 500, num encontro. Só que quando ele superaquece e para no trânsito, essa beleza não vai fazê-lo andar de novo.
Você deve pesar também qual o uso que dará para o seu carro antigo, para poder calibrar as expectativas e orçamento. Se quer um carro de uso diário, fuja de modelos mais raros ou antigos pois eles não foram feitos para enfrentar o trânsito pesado que temos aqui (se você mora numa cidade sem trânsito, sua vida fica mais fácil), e procure carros (ou motos) menos antigos e exclusivos. Opala, Fusca, Corcel II e Passat são os melhores nestes quesitos. Se o seu uso for mais restrito a finais de semana e feriados, um carro mais antigo pode ser a sua melhor escolha mas lembre-se: você terá que ligá-lo e dar uma volta praticamente todos os finais de semana, para que as partes mecânicas e eletromecânicas se mantenham lubrificadas e funcionais, e a bateria se mantenha carregada.
"Flash Gordon" (Dodge Dart 75) em uma das repinturas. Muito aprendizado vindo deste projeto...
Por fim, lembre-se que os automóveis e motocicletas evoluíram muito e portanto, esperar que um Fusca 1300 tenha o mesmo consumo de um VW Up!, ou então que um Opala Diplomata seja mais veloz e confortável que um Honda Civic, vai certamente lhe trazer algumas decepções. Os preços podem ser até diferentes em alguns casos, mas hoje com R$25.000 você encontra um bom Opala Diplomata 6 cilindros e um também bom Honda Civic 2004 - qual deles dará mais prazer para você em um aspecto amplo, vai depender unicamente do que você espera, então faça alguns "test drives" e tire a dúvida. Às vezes carro antigo não é para você. Sério. Você pode admirar, dar umas voltas de vez em quando, mas ter um pode não ser a sua praia. 



VW sedan (Fusca) 1968 e VW up! 2014 - 48 anos de distância em tecnologia e estilo, à sua escolha.

Resumo: pense antes de torrar seu suado dinheirinho num carro ou moto que podem virar um pesadelo. E se você estiver decidido a entrar neste divertido mas trabalhoso mundo dos carros (e motos) antigos, aguarde o próximo post.
...

domingo, 20 de abril de 2014

Nove carros que eu gostaria de ter.

Várias pessoas fazem para mim a incômoda pergunta "quantos carros você tem?" - e para mim é desagradável responder porque a quantidade definitivamente não corresponde ao custo deles, e muito menos a alguma aparência de condição financeira abastada. Se assim o fosse, a frota provavelmente seria maior e todos (eu inclusive) moraríamos num lugar onde todos pudessem ficar juntos e serem reparados no mesmo local sempre que possível. Mas garanto que não é assim, e cada vez que eu olho para um carro diferente, minha esposa me olha com aquele olhar questionador de "você vai colocar mais um carro aonde??".

Enfim, se espaço, dinheiro e tempo não fossem restrições, estes seriam os meus 7 8 9 (?) escolhidos - vejam que a lista pode ser excêntrica, mas com poucas exceções não tem nenhum carro óbvio e de custo proibitivo, como um Ferrari ou Lamborghini que apareceria nas listas mais frequentes. Talvez seja de estranhar a falta de carros da Ford ou o excesso de Opalas, mas a lista reflete a minha opinião, e cada um pode variar conforme ache adequado. Lá vamos nós:

Opala Comodoro 2 portas 6 cilindros 1988

Sempre lembro da minha adolescência, onde o "rei das ruas" era o Opala Diplomata 6 cilindros, tanto pelo desempenho quanto pelo luxo. Só que eu gostava mesmo era dos Opala Comodoro por serem menos rebuscados quanto a frisos e detalhes, mas ainda tinham  o excelente acabamento que o qual GM se orgulhava em toda a sua linha. Além disso, o Comodoro era "carro de velho", já que era modelo intermediário, e quase não foram fabricados os modelos de 2 portas - na minha opinião, os mais bonitos. Até hoje eu tenho sonhos onde estou dirigindo um desses azul escuro, numa rodovia em que não existam estes malditos radares nem tantos motoristas barbeiros...

Trabant 601

Quando houve a queda do Muro de Berlim, eu era um adolescente que já gostava muito de carros antigos, e os Trabant me cativaram pelo estilo antiquado para a época (ninguém dizia "retrô"), e ficava com muita dó de ve na TV milhares de carrocerias e carros inteiros sendo abandonados e picados como um dos efeitos colaterais da reunificação a Alemanha. Para mim ele representa uma época que não vivemos mais - onde haviam duas ideologias claras, "mundos" distintos dentro de um só, mas que no fim das contas éramos humanos com ambições e sentimentos tal qual somos hoje.
Como veem pela foto, tive a grata oportunidade de dirigí-lo em Berlim e o carro é pequeno por fora, minúsculo por dentro, barulhento e o carburador deste azulzinho da foto estava afogando. Ainda assim, adorei o carro e espero um dia trazer um exemplar destes para terras tropicais abaixo da linha do equador.

Karmann-Ghia (até 1969)

Um lindo esportivo com curvas que até hoej fazem sucesso por onde passam, e que se tivesse um motor potente seria de fato um carro esportivo. É o tipo de carro para ir à praia com a esposa (os solteiros ganham uma ótima razão para convencer a uma garota para passear), e para ser escolhido com cautela, já que a funilaria de um KG é bem complicada por ser totalmente manual. A mecânica refrigerada a ar igual à do Fusca torna a vida mais fácil para maiores aventuras. E digam: já foi feito no Brasil algum carro mais bonito e harmonioso do que este?

 
FNM JK 2000 (ou FNM 2150)

Um carro à frente de seu tempo, principalmente para o mercado brasileiro - tão à frente que era caro demais e acabou não vendendo muito. Mas o estilo dele, com desenho italiano para o mercado americano é sensacional, e o desempenho dele para a época era também invejável. O câmbio de 5 marchas com acionamento na coluna de direção é para poucos, e a direção dele é tão pesada quanto a de um caminhão sem assistência hidráulica, mas o acabamento é primoroso e o estilo, ah o estilo... vi pouquíssimos ao vivo até hoje, e este carro preto da foto vem povoando meus pensamentos há muito tempo. Só não tomei ainda a coragem financeira (que inclui espaço e orçamento de "ressureição" do veículo) para fazer uma proposta para o atual proprietário, mas hei de chegar lá (se alguém realmente se habiliar a restaurar este carro da foto e tiver tanto a paciência quanto a verba para isso, deixe uma mensagem para mim).

Um carro que espero um dia chamar de meu.

Opala 2 portas Gran Luxo 6 cilindros, 1973 ou 1974.
Outro carro que povoa meus sonhos desde minha adolescência, também pelo conjunto da obra ou seja, desempenho, luxo, conforto e uma certa discrição que o Opala SS não tinha. Este Opala verde menta que encontrei num encontro tem a descrição exata do carro que eu gostaria de ter (até a cor é a que eu gostaria), inclusive com ar condicionado original. Não tive nem abertura nem coragem para perguntar ao proprietário se ele o venderia, primeiro por ele me parecer bastante satisfeito com o carro, e segundo porque sele ele falasse que este Opala poderia ser meu, certamente seria por uma quantia que excederia ao meu juízo, sem contar que não teria nem onde colocar o carro, portanto valeu o silêncio.

"Opaloito" ou "Caravoito"
Na categoria "muscle cars brasileiros", este é o meu modelo - pegar um Opala 2 ou 4 portas ou uma Caravan, bom mas sem ser perfeito, de preferência 4 cilindros e 4 marchas ou então automático, e colocar um motor Chevrolet V8 "small block" 350, preferencialmente com injeção eletrônica, junto com um diferencial de Dodge, câmbio de C10 e freios a disco nas quatro rodas. Este "misto quente" já foi feito por algumas pessoas e o resultado é o melhor possível - sem frescuras, nem dores de cabeça para manutenção ou adaptação, apenas um carro limpo, rápido e confiável.
Um excelente candidato a Opaloito
Motor Chevrolet 350 small block instalado no cofre de um Opala. Parece que nasceu para o carro.

"Chepala" hatch 4 cilindros
"Chepala 4 cilindros" do jornalista Josias Silveira. Fonte: blog AUTOEntusiastas (www.autoentusiastas.blogspot.com.br)
O que fazer com o motor de Opala que sobrou do "Opaloito"? Colocar num Chevette hatch e fazer um "Chepala", e ter um ótimo carro antigo de uso diário. A adaptação é relativamente simples e foi muito frequente nos anos 70 e 80, porém recentemente os pesados e robustos motores de Opala 4 cilindros deram lugar a motores 2.0 de Astra e Vectra com injeção eletrônica, mais leves e de potência bastante superior - proposta tentadora, mas que para mim foge um pouco da receita de simplicidade e baixo custo que se espera de um projeto desses. Motores de Opala 4 cilindros há aos montes (eu mesmo tenho dois, guardados), tem diversas preparações disponíveis e cabem sem adaptações mais pesadas num Chevette, e custam pouco para comprar e manter. Já os motores mais novos são um pouco mais salgados demandam adaptações no câmbio e um conhecimento sobre eletrônica que automotiva eu ainda não tenho.

DKW Vemaguet Belcar até 1963
ESTA é a Vemaguet que eu gostaria de ter - azul com teto branco, com calotas e sobrearos, e com as tais portas suicidas. Tanto DKW como Vemaguet são bem legais, com seus motores 3 cilindros de 999 cm3 e dois tempos, que fazem eles soltarem aquela fumacinha azul pelo escapamento e produzem aquele ruído característico de motor que sobe de giro rapidamente. Os 50 cv de potência dão conta do recado com competência (guardadas as devidas proporções de um projeto da década de 50), e o interior deles é bem espaçoso. Peças de reposição preocupam, mas comparados aos Gordini manter um DKW não é o que há de mais difícil, além do clube ser formado por reais entusiastas.

Austin Mini (o antigo)
A obra prima de Alec Issigonis, este carrinho é sensacional - menor que um Fiat 147, da altura de um Puma, mas que acomoda com conforto 4 passageiros, dá para entender porque ele foi fabricado de 1959 até 2000. O motor original - de 850 cm3 e pífios 36 cv - é compensado pela excelente estabilidade do carro, sendo a versão com motor de 1275 cm3 extremamente divertida de dirigir. O desenho dele é fenomenal, simples mas bem acertado, sendo um clássico admirado onde quer que você vá. Trazer um exemplar destes para o Brasil não é o que se pode chamar de barato, mas não é a coisa mais cara do mundo, e o espaço ocupado por ele na garagem é menor que o de uma carretinha - chega a ser engraçado. Além disso, é mais simpático e menor que um Smart, (que aliás, fica parecendo um Kinder Ovo para o Godzilla perto do Mini), ou mesmo o Fiat 500 novo.

Há mais carros que povoam meus pensamentos sim - como um Pontiac Firebrd 1971, um Dodge Challenger 1972, ou mesmo uma Kombi pick-up até 1975. Há também um monte de outros carros legais que consideraria juntar à frota dependendo do preço e condições, mas não são necessariamente carros que eu deixaria hoje na lista. E você, qual seria a sua lista?